Mercado de Locação

Assinaturas de carro, casa e até roupa se popularizam

aluguel — Foto: Getty Images

O surgimento e popularização das plataformas de streaming como Netflix e Spotify evidenciaram um modelo de consumo que viraria tendência: a assinatura de serviços sob demanda (ou o popular termo em inglês “on demand”). O que antes se limitava a produtos de entretenimento, ultrapassou os limites do on-line e chegou até o seu guarda-roupa ou até mesmo moradia. Sim, já é possível “assinar” desde um closet novo até seu próximo apartamento (e tudo que você precisa para viver nele).

Segundo especialistas essa tendência é baseada na tese de que as novas gerações têm uma relação diferente com os bens. De acordo com eles, jovens da “geração Z” (aqueles nascidos já em um mundo digital e conectado à internet) e os próprios “millenials” (nascidos na virada do milênio, entre os anos 1990 e 2000) tendem a priorizar experiências ao invés de itens.

Por isso, ter um carro, um apartamento ou até mesmo uma roupa deixa de ser fundamental. É aí que surgem serviços de assinatura de automóveis, casas e até mesmo de itens de guarda-roupa, que podem ser trocados a cada mês. O importante, para esses jovens, não é tê-las, mas sim usufruir dessas coisas.

“Quando somos mais jovens, de fato somos menos apegados com a ideia de possuir, até porque os mais jovens ainda estão construindo a carreira, a vida, a renda ainda não é tão alta e nem estável. A própria vida não é estável, as pessoas se mudam, querem mais liberdade”, afirma o professor Henrique Castro, da FGV. Ele pondera, no entanto, que as pessoas envelhecem e a necessidade ou o desejo de ter um bem (como uma casa) pode aparecer ao longo dos anos. No entanto, ainda assim, sempre haverá uma “nova geração” demandando por menos posses.

Por outro lado, o professor Guilherme Fowler, do Insper, destaca que ainda não se sabe como a geração Z se comportará quando mais velha.

“Pra mim, como analista e economista, não está claro ainda como a geração Z e de jovens atuais vai encarar o próprio envelhecimento. Pode ser que eles não queiram ter bens mesmo quando forem mais velhos, por não querer se sentir como seus pais. Pode ser que eles tenham essa ‘aversão'”, afirma. De acordo com o especialista, se isso acontecer, a demanda por produtos “on demand” e por assinatura pode perdurar por mais tempo, tanto por essa geração quando mais velha como também pelos mais jovens de outras gerações que virão.

Mas afinal, viver assim é economicamente viável?

Embora empresas de serviços “on demand” tenham surgido com uma proposta de oferecer opções mais baratas ao cliente (afinal, uma mensalidade básica da Netflix sai mais barata do que uma assinatura básica de TV a cabo), com o tempo elas passaram a ter também um caráter de oferecer comodidade. E como é de se esperar, às vezes serviços mais cômodos podem sair mais caros. Para saber se vale a pena, segundo especialistas, é preciso mapear seu perfil de consumo.

“Se você assina um serviço e usa pouco, por mais que ele seja barato, é a mesma lógica da pessoa que come pouca carne e vai no rodízio da churrascaria. Ela gasta muito para um benefício pequeno”, afirma o professor Fowler, do Insper.

Castro, da FGV, concorda. Para ele, a primeira conta que o consumidor precisa fazer é o quanto ele usa aquele item e o quanto gasta para usá-lo. “A ideia do conceito de você alugar essas coisas ao invés de comprar envolve não só bens caros. E a gente pensa se é economicamente viável. A gente se pergunta: compro um carro ou alugo quando preciso? Isso depende do volume de uso“.

Ele reforça, no entanto, a ideia da comodidade e do serviço que está sendo prestado, que muitas vezes, para aquele consumidor vale a pena. “Tem a ideia da curadoria também, uma gama de prestações de serviços que vão além do bem, como vemos por exemplo em clube de assinatura de vinhos, cervejas”, afirma.

É baseado nisso que surgiram serviços como o da empresa Clo.Rent, que oferece assinatura de roupas (isso mesmo). Nela, você escolhe o plano básico, super ou master. No básico, as clientes pagam R$ 189 por mês e recebem três peças de roupas para usar naquele mês. No super, o valor sobe para R$ 319 por seis peças mensais. No master, paga-se R$ 549 por 12 peças.

Para os fãs de eletrônicos, há ainda a chance de “assinar” um iPhone. A Allugator, empresa especializada em aluguel e assinaturas de eletrônicos do país, oferece essa possibilidade e já iniciou até a pré-assinatura do iPhone 13, modelo mais novo da Apple. Os preços do aluguel variam de R$ 1.385 a R$ 6.500, no contrato anual, conforme o modelo do aparelho.

E esse tipo de “curadoria” não limita-se a serviços e produtos mais simples. Ela vai até o aluguel de imóveis, no qual empresas como a Housi oferecem casas e apartamentos já mobiliados e equipados com tudo que uma pessoa precisa para sobreviver (incluindo móveis e serviços como wi-fi, luz e gás).

Ainda falando sobre bens “caros”, existe a opção de “assinar”, por meio de aplicativos como o Turbi, um carro por prazos mais longos e não se preocupar com gastos como seguro, documentação e até mesmo gasolina.

Segundo os especialistas, no entanto, é preciso não só fazer as contas para ver se eles fazem sentido, como também ponderar se aquele tipo de serviço se encaixa e faz sentido dentro do seu estilo de vida. Afinal, pagar pelo que não usa sai sempre mais caro.

Quando valem a pena?

  • Casa

Uma das ondas mais recentes das empresas que oferecem algo por assinatura é o aluguel. Quem já alugou ou até mesmo comprou um imóvel sabe todo o trabalho e custos que isso implica. Além de encontrar uma casa ou apartamento, é preciso fazer o contrato, encontrar um fiador ou pagar um seguro-fiança e, por fim, ter o trabalho de mobiliar, contratar um plano de internet, TV e telefone, ligar a luz e o gás. Assim surgiram os serviços de “casa por assinatura“. Trocando em miúdos, eles são como uma imobiliária em que você pode escolher um imóvel e fazer uma assinatura para morar nele por quanto tempo quiser, geralmente com o limite de 12 meses.

O ponto chave, nesse caso, é a comodidade. Afinal de contas, o imóvel já vem equipado com tudo que você precisa para morar nele: móveis, luz, internet e até televisão a cabo. Portanto, você não precisa se preocupar nem com a mobília e nem com a contratação de serviços. Tudo entra no “pacote”.

“Você tem a chance de morar com a mesma facilidade que chama um Uber. Você escolhe por quanto tempo, se vai pagar no cartão de crédito, fazer um Pix… Enfim, tudo é de forma extremamente fácil”, afirma Alexandre Lafer, presidente da Housí, uma das empresas mais populares de “moradia por assinatura”.

Segundo o executivo, o modelo é vantajoso não só porque o cliente pode escolher como quer pagar, mas também porque a Housí consegue negociar com prestadoras de serviços preços mais vantajosos.

“Quando falamos das contas de consumo, como a Housí compra em escala, conseguimos prover de forma vantajosa. Se o cliente fizer tudo sozinho, tem que comprar equipamento pra instalar e usar o wi-fi, fazer um plano mínimo da operadora, tem que pagar a taxa pra ligar a luz, o gás, etc”, afirma.

Em uma região como a Vila Olímpia, bairro nobre de São Paulo, um apartamento de 26 metros quadrados pode ser “assinado” por R$ 3.845 em um período de 12 meses. Dentro do plano estão o aluguel, condomínio, IPTU, água, luz, internet e TV a cabo.

Na imobiliária Quinto Andar (que oferece aluguéis firmados virtualmente, sem a necessidade de fiador ou seguro-fiança), um apartamento de 28 metros quadrados é oferecido por R$ 3.100, inclusos aluguel, condomínio e IPTUTambém é possível encontrar imóveis maiores, de 50 metros quadrados, na mesma região, por R$ 3.200.

Se for levada em consideração que apenas uma pessoa viva em um apartamento como esse, ela pode consumir um plano de internet de R$ 100 mensais e gastar aproximadamente R$ 60 de água e R$ 20 de gás. Portanto, sairia mais barato viver no modelo “tradicional” de aluguel.

“O que esses pacotes oferecem aos clientes é algo que vai além do bem, mas tem embutido no pacote uma série de serviços. A não preocupação com ter que contratar um serviço de internet, de ter que lidar com a companhia de energia, água. E você ainda tem a flexibilidade de que se você tiver que se mudar, não precisa romper contratos. A ideia é tornar sua vida mais simples, mas tem um preço. Se comparar o mesmo apartamento ou um muito parecido nas duas formas, talvez você pagaria um pouco mais barato no modelo ‘tradicional’, mas te dá mais trabalho”, afirma o professor Castro, da FGV.

Além da Housí, existem também a Casaí e a Nomah. As duas, no entanto, são mais voltadas para aluguéis em períodos mais curtos, como o que acontece no já consolidado Airbnb. A grande diferença é a “curadoria” feita pelas companhias, que escolhem não só imóveis bem localizados como também promovem reformas a fim de deixar o ambiente o mais bem equipado possível.

Na Casaí, a duração média das estadias é de oito a 10 dias. Os imóveis geridos pela companhia estão não só em suas próprias plataformas mas também em sites de hospedagem como o Booking.com e o próprio AirbnbDaniel Hermann, diretor de expansão Casaí, explica que o grande diferencial da companhia é ter um algoritmo que detecta se as buscas estão mais intensas para pequenas ou longas estadias e, assim, dinamiza o preço para atender à maior demanda daquele momento.

Na Nomah, 25% dos clientes fazem locações acima de um mês. “Tem gente que faz três, seis e até 12 meses, mas nunca temos contratos longos como 30 meses. Isso está em linha com o dia a dia flexível de hoje”, afirma Thomaz Guz, presidente da companhia. Segundo o executivo, o preço final da Nomah é mais baixo do que o de um hotel bem equipado.

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