M&A - Compra & Venda de Locadoras

VALUATION! Você sabe quanto vale sua locadora? Parte 2

VALUATION NA PRÁTICA

Carlos Tristão*

PARTE 2

Na primeira parte vimos sobre o contexto da avaliação de empresas, explicando principalmente a diferença entre preço e valor. Se você perdeu, entre aqui .

Nesta próxima parte (Parte 2), traremos aspectos mais técnicos em relação às principais metodologias de avaliação de empresas, de forma com que você possa simular com sua empresa quais as principais referências de preço (e de valor) mais propensas a que seja avaliada por diferentes tipos de investidores.

 PRINCIPAIS METODOLOGIAS DE AVALIAÇÃO

” No mundo dos negócios, o espelho retrovisor é sempre mais claro do que o para-brisa”. Warren Buffet

As três principais metodologias de avaliação, segundo métricas contábeis, econômicas e estratégicas, tem nos resultados históricos a base de consistência inclusive para projeções futuras.

Avaliação patrimonial:

Metodologia pouco utilizada como referência base em operações estruturadas de M&A, visto que não agrega aspectos estratégicos do business, mas sim um panorama seguro sobre o patrimônio da empresa e sua estrutura de capital. Utilizada em situações pontuais, como em uma liquidação judicial (tecnicamente há alguns pontos específicos) ou quando uma empresa passa por dificuldades e seus resultados não são satisfatórios. Basicamente, se apuram os valores justos de balanço para se chegar ao patrimônio líquido, apontando ativos a preços de mercado, ajustando taxas de depreciação como eventuais testes de impairment, e passivos a valor presente.

Imaginemos uma indústria obsoleta e com resultados em declínio, fazendo com que se compense fechar do que mantê-la ativa. Se apura o valor das máquinas e demais ativos, por exemplo, R$ 10 milhões, subtrai os passivos (dívida líquida e eventuais contingências), por exemplo, R$ 8 milhões, restando um saldo de R$ 2 milhões. Este seria o valor líquido ao acionista (equity value). Atentar à questão fiscal para o caso de venda de ativos individualmente.

No caso de locadoras de veículos, principalmente devido ao expressivo aumento no preço dos veículos seminovos, essa avaliação tem se tornado mais relevante, principalmente para empresas que não tem performado bons resultados operacionais e financeiros.

Uma outra metodologia importante é a avaliação por múltiplos, onde se compara o valor de mercado de outras companhias, e transações realizadas no segmento, com seus indicadores chaves, tanto financeiros quanto específicos do business. Essa metodologia, pela sua característica prática, é bastante utilizada em transações de M&A, tanto de forma exclusiva quanto complementar a outras metodologias.

Um exemplo:

Imaginemos uma empresa detentora de software especializado em marketing B2B. Há empresas de software sendo negociadas na B3 em que seus dados operacionais e financeiros são públicos, assim, se faria um estudo do valor de mercado dessas companhias comparando indicadores chaves, como receita operacional líquida (EV/Sales)Ebitda, receita recorrente, lucro (P/L), churn, LTV/CAC, taxas de crescimento, entre outros. Pode estender a comparação com empresas negociadas em outras bolsas de valores mundiais, assim como com companhias de capital fechado que divulgam seus dados e/ou ainda, que realizaram operações de M&A, o que é comum serem divulgadas informações inclusive em transações minoritárias para captação de recursos (fundraising).

Aqui é muito importante se atentar no aspecto qualitativo das comparações, visto que, as empresas têm estágio, atuação, posicionamento, fatores críticos de sucesso, potenciais, estrutura financeira, liquidez bastante diferentes umas das outras. Por exemplo, não se pode trabalhar com o múltiplo em que a Totvs adquiriu a RD Station para avaliar uma empresa early stage, ainda validando seu MVP, assim como não se pode trabalhar com o múltiplo de P/L do Burguer King para um único restaurante localizado em um bairro específico de uma cidade. Empresas listadas trazem liquidez e menor risco ao investidor, ou seja, suas ações podem ser negociadas a qualquer tempo, diferentemente de empresas de capital fechado, o que eleva seu valor, além disso, são empresas estruturadas e com plano estratégico e de risco mais bem validados.

Para que você possa simular qual o valor da sua locadora e o valor líquido aos sócios por este método, pode-se, por exemplo, calcular a margem operacional Ebitda (bastante utilizada para transações no segmento), multiplicando-a por um índice entre 4 e 6 vezes (anos), deduzindo do resultado seu endividamento líquido. Esse é um intervalo de valor razoável em que o mercado precificaria seu ativo. Nota-se que não se levou em conta qual o tamanho da sua frota ou quantos funcionários a empresa tem, visto que a metodologia tem como prerrogativa trazer qual o período necessário de geração potencial de caixa para “reaver” o investimento.

Uma terceira avaliação, sendo a tecnicamente mais aceita, é a avaliação por fluxo de caixa descontado (DCF – discounted cash flow), ou seja, vai direto no que o investidor busca com a negociação de um ativo empresarial, o de remunerar seu investimento considerando a expectativa de geração de caixa ao longo do tempo, pontuando também fatores como risco, estrutura de capital e seu custo, tamanho e potencial de mercado, plano estratégico e operacional, entre outros, sendo apresentado com projeções consistentes de resultados ao longo dos anos. Essa metodologia, quando realizada de forma profissional e detalhada, traz segurança na definição do intervalo justo de valor de uma empresa.

Exemplo: Vamos imaginar que você tem uma empresa de serviços com contratos assinados com clientes. Construa uma projeção de fluxo de caixa para os próximos anos inserindo a receita projetada destes clientes ao longo do período. Insira uma linha projetando novos clientes a adquirir, com base em mercado e seus diferenciais, insira custos e despesas para atender esta receita, não esquecendo que deve ser detalhado com plano para cada conta, de forma a não colocar uma projeção de margem muito mais otimista do que na prática a empresa tem conquistado. Ajuste alíquotas de impostos conforme os cenários, insira investimentos que deverão ser feitos, amortização de empréstimos, despesas financeiras, entre outros. Após esse fluxo estar pronto, inicia a segunda parte, a determinação da taxa de desconto desses fluxos futuros a valor presente.

Essa taxa tem o objetivo macro de ser um custo de oportunidade, considerando o custo de capital aliado a fatores como risco (exemplo, prêmio por falta de liquidez) e variação em relação a índice base (Beta). Assim, se calcula o custo médio ponderado de capital (WACC) para se fazer o desconto, considerando % de capital próprio na sociedade (PL) x custo (CAPM) + % de capital de terceiros x custo (despesas financeiras a serviço da dívida).

Com essa análise detalhada em relação ao business, é possível também entender a fundo as variáveis de criação de valor do negócio (EVA), que direcionarão a empresa e sócios em relação à sustentabilidade do modelo de negócio.

Sobre o método DCF, lembre-se de que o papel aceita tudo. Além disso, quando é apresentado de forma leviana e sem critérios, diz muito sobre a falta de gestão da empresa.

Essas três principais metodologias trarão uma visão macro aos sócios do intervalo de preço e de valor com que a empresa seria avaliada por diferentes tipos de investidores e em diferentes contextos. Na próxima parte falaremos um pouco sobre a avaliação de empresas da nova economia, com modelos mais escaláveis, e ainda em estágios iniciais, as famosas start-ups. Espero que tenha gostado até aqui. Até a próxima!

*Carlos Tristão é economista e sócio da OVERVIEW, uma boutique de fusão e aquisição de empresas associada à AUDITBuySell, em uma aliança que tem como missão atender ao mercado das locadoras de forma especializada. Carlos também coordena a Câmara de M&A da Associação Comercial do Paraná.

Valuation na Prática Parte 2

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