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O crescimento do Brasil depende de mais investimentos em logística

Principal executivo do maior grupo de transporte marítimo do mundo enxerga oportunidades de negócios no segmento terrestre, mas condiciona o sucesso da economia a mais empenho em infraestrutura.

O executivo holandês Robbert van Trooijen, que comanda na América Latina as operações da Maersk, maior grupo de logística marítima do mundo, com faturamento de US$ 39,7 bilhões no ano passado e frota de 705 navios, tem observado com foco microscópico as oportunidades de negócios e investimento em toda a região, a partir de seu escritório na Cidade do Panamá. Embora acompanhe de perto a dinâmica de diversas economias, é o potencial de crescimento no Brasil — país com maior extensão litorânea, maior dimensão territorial e uma das mais defasadas infraestruturas de transporte — que chama a sua atenção. “Como fazenda do mundo, o Brasil precisará investir em logística terrestre para aumentar a conectividade e reduzir custos”, disse Trooijen à DINHEIRO. Além de mais recursos, esse aumento de eficiência na logística passa, segundo ele, pela digitalização. “O País é muito manual em seus processos logísticos, algo que precisa mudar”, afirmou. Acompanhe, nas páginas a seguir, os destaques da entrevista.

DINHEIRO —O chamado custo Brasil é quase tão antigo quando o próprio Brasil, mas pouco se faz para equacionar esse problema. Qual a sua proposta?
ROBBERT van TROOIJEN — Como fazenda do mundo, o Brasil precisará investir em logística terrestre para aumentar a conectividade e reduzir custos para os produtores em um país continental. Isso inclui mais ferrovias, estradas e armazéns. Por isso, vemos as maiores oportunidades de crescimento em logística terrestre e serviços no Brasil. A Maersk está procurando aprofundar sua presença em logística terrestre, como armazenamento e distribuição, gestão da cadeia de suprimentos, desenvolvimento da cadeia de suprimentos, serviços alfandegários e financeiros. Em todo o mundo, crescemos 42% no primeiro trimestre deste ano, para mais de US$ 2 bilhões.

Aprofundar presença da Maersk significa comprar empresas ou crescer organicamente?
Ambas. No transporte marítimo, somos líderes. Mas em logística terrestre, não. Por isso, o crescimento orgânico é superimportante. Nesse quesito, já estamos crescendo entre 20% e 25% ao ano, mas numa base mais humilde. Estamos pensando também em fazer investimentos em capacidade, basicamente, não necessariamente orgânico, já olhamos alguns projetos. As aquisições devem fazer sentido para nós, financeiramente e operacionalmente. Estamos olhando o mercado, sim, para eventuais aquisições.

Se a Maersk lidera no setor marítimo, planeja liderar também em transporte terrestre?
Nosso objetivo é estar entre os cinco maiores em termos de capacidade e faturamento até 2025. Não temos um número exato, nem uma porcentagem do mercado que queremos alcançar. O mercado de logística no Brasil é superfragmentado, tem muitos fornecedores, muitos deles pequenos. Há pouca concentração da oferta entre os fornecedores e, por isso, esse é um grande desafio. O crescimento do Brasil depende de mais investimentos em logística. E a logística, para acompanhar a demanda crescente, precisa se digitalizar.

Como a Maersk pode ajudar nisso?
Desenvolvemos um sistema de inteligência artificial e digitalização, o NeoNav, de toda a cadeia logística. Queremos digitalizar a logística brasileira, permitindo que os clientes tomem decisões em tempo real e informadas sobre suas cargas, reduzindo custos. Com a utilização dessa plataforma para as grandes empresas é possível gerar economia de milhões, com casos no exterior mostrando que os clientes podem economizar de US$ 30 a US$ 40 por contêiner [TEU] por ano. Também existem benefícios ambientais. O NeoNav contribui para uma redução de 50 kg de CO2 por contêiner.

“O País tem hoje a oportunidade de se tornar um grande parceiro do mundo, de reduzir as barreiras para viabilizar o comércio” (Crédito:Divulgação)

Num país imenso, com problemas crônicos em estradas, portos e aeroportos, basta digitalizar?
O maior problema é falta de integração. Há muitos investimentos em várias partes da cadeia de suprimentos, mas cada um está otimizando a parte dele. O terminal portuário está otimizando a parte dele. O caminhoneiro está otimizando a parte dele. Mas, para o cliente final, trata-se de uma cadeia de suprimentos só. O que importa é como um produto fabricado na Ásia, por exemplo, chega até a loja no Brasil. A digitalização traz o benefício de permitir ao cliente controlar essa cadeia. O cliente hoje tem de lidar com dez, 20 ou 30 empresas diferentes.

Essa fragmentação é maior no Brasil do que em outros países?
O Brasil, assim como a América Latina, tem uma logística muito manual. Há pouca digitalização da operação, principalmente quando estamos falando de operação integrada, logística integrada. Um aplicativo de software sabe controlar o fluxo de carga, por exemplo, desde a origem, cuidando da parte da alfândega, cuidando da organização dos armazéns, cuidando dos suprimentos das lojas. Eu sinto que a cadeia de suprimentos é subutilizada. Por isso, estamos sempre falando de custo Brasil, da complicação e da ineficiência da cadeia.

O País está mais defasado em comparação a outras grandes economias?
Não diria que o Brasil está no mesmo nível que Europa, Estados Unidos e China. Está no caminho e tem o push do e-commerce que está acelerando o investimento na região. Fazemos e-commerce para vários clientes em outros lugares do mundo e também queremos fazer mais isso no Brasil. Temos experiência com outras marcas e com outros países.

Qual a sua visão para a economia brasileira?
Temos uma visão de longo prazo e acreditamos no crescimento e na competitividade do Brasil. O País tem hoje a oportunidade de se tornar um grande parceiro comercial do mundo, de reduzir as barreiras para viabilizar o comércio, reformar as leis fiscais e trabalhistas e firmar novos pactos comerciais. Nesse ambiente que queremos fortalecer nossa logística terrestre e serviços. Só no primeiro trimestre, nossa receita aumentou 30%, para US$ 12,4 bilhões. E tivemos receita de US$ 39,7 bilhões em 2020.

Para crescer em transporte e logística terrestre, está no radar comprar parte dos Correios?
A atuação dos Correios está um pouco longe do nosso objetivo. Somos uma empresa de logística, mas não de entregas. Estou falando de abastecimento de lojas, por exemplo, abastecimento de armazéns. Hoje a operação dos Correios tem uma atuação diferente. Estamos interessados em armazéns, construindo armazéns, comprando armazéns de outros, comprando empresas que oferecem logística terrestre. Estamos interessados em operações alfandegárias e em operações de aduana, todas as coisas que facilitam o fluxo de carga de nossos clientes.

Se não tem interesse nos Correios, vê como oportunidade algum ativo a ser privatizado?
Não. Estamos mais pensando em ativos privados do que ativos do governo. Obviamente, se há um terreno, se existe uma facilidade, um tipo de infraestrutura a ser privatizada, estamos interessados. Em termos de aeroportos, não. Obviamente, em portos marítimos já temos quatro terminais no Brasil e também uma participação de 30% em Itajaí, um terminal só nosso. Temos vários investimentos grandes. Tudo isso foi parte dos investimento de US$ 7 bilhões no Brasil. Em termos de infraestrutura portuária, temos uma participação grande, mas não em estrutura portuária, que chamamos de portos secos.

O foco dos investimentos da companhia será em regiões brasileiras mais desenvolvidas, como Sudeste, ou a ideia é levar desenvolvimento para a logística no Norte e Nordeste?
Onde tem demanda, temos interesse. Mesmo na região Sudeste, que está atendida de uma maneira razoável, há necessidade de investimentos. Vários clientes nossos no Sudeste estão precisando de mais espaço, pedindo mais infraestrutura. Eles estão tentando baixar o custo de logística e não é somente o custo do armazém, é o custo de transporte terrestre. Não é somente questão de ter capacidade. Ainda acho que São Paulo, região com portos, rodovias e aeroportos, tem falta de capacidade. Há muito investimentos a ser feito.

“Mesmo na região Sudeste, que está atendida de uma maneira razoável, há necessidade de investimentos. Estamos aqui para investir” (Crédito:Lucas Lacaz Ruiz)

O Brasil teve agora no primeiro quadrimestre, de janeiro a abril de 2021, o melhor período de exportação da sua história, impulsionado pela desvalorização do real frente ao dólar. Qual foi o impacto disso nos seus números?
O mundo todo está crescendo rapidamente. Estados Unidos, Europa, Ásia… Todos estão crescendo. Tudo isso tem a ver com a pandemia. No começo do ano passado, a China quase fechou porque os trabalhadores não conseguiram voltar aos empregos com as cidades em lockdown. E quase todas as fábricas pararam. A partir do último trimestre, houve uma explosão na China que resultou em congestionamento global de portos e navios e de transporte terrestre. O Brasil se aproveitou da demanda alta por produtos agrícolas, minério de ferro, soja, algodão, carne. Aqui o efeito foi igual. Faltou contêiner no mercado. Os navios saíram do Brasil supercheios. Houve congestionamento em todos os portos do Brasil e também do exterior. Sentimos isso em nível global.

Qual será o investimento da Maersk no País?
Desde 2010, investimos US$ 7 bilhões. Para os próximos dez anos não temos o número porque vai depender da oportunidade. Mas estamos aqui para investir.

A instabilidade política e econômica não preocupa?
A companhia tem 150 anos de história no Brasil. Já passamos por vários altos e baixos. Estamos para ficar. Obviamente, já vivemos épocas de crise, de situação econômica menos vantajosa, mas passamos por isso. É algo com o qual estamos acostumados. O mercado brasileiro continua sendo superatrativo para nós.

Fonte: ISTOÉ

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