Uma análise detalhada do mercado automotivo brasileiro revelou uma tendência preocupante para os proprietários de veículos eletrificados. Um estudo recente, publicado no guia Qual Comprar da revista Autoesporte, apontou que carros elétricos e híbridos estão entre os que mais perdem valor após apenas um ano de uso, com quedas que superam significativamente a média nacional.
Fatores que determinam a queda de valor
A expressiva desvalorização observada, principalmente em modelos elétricos, é resultado de uma combinação de fatores estruturais e de percepção de mercado. Um dos principais obstáculos é a capilaridade da rede de concessionárias. Marcas com menor presença física no território nacional, como a JAC, que possui cerca de 40 pontos de venda, geram incerteza entre os compradores de seminovos, que temem dificuldades para realizar manutenções ou encontrar peças de reposição. Essa limitação contrasta fortemente com as centenas de lojas de fabricantes consolidados, como Toyota e Volkswagen, cujos modelos tendem a reter mais valor.
Outro ponto crítico é a infraestrutura de recarga para veículos elétricos. Segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o Brasil contava com aproximadamente 4.200 pontos de recarga públicos em 2024, um número considerado insuficiente para a frota crescente. Essa escassez impacta diretamente a conveniência e a autonomia percebida pelos motoristas, tornando os modelos elétricos menos atraentes no mercado de usados, especialmente para quem não possui um carregador doméstico ou realiza viagens longas com frequência.
Os modelos com as maiores perdas no ranking
No topo da lista de desvalorização está o JAC E-JS4, um SUV elétrico comercializado por R$ 254.900. Em apenas um ano, o modelo registrou uma perda de 37,5% de seu valor, a maior entre todos os veículos analisados. Apesar de contar com um motor de 150 cv e design moderno, sua autonomia de 256 km e a rede de assistência técnica limitada dificultam sua revenda.
Logo em seguida, aparece outro modelo da mesma fabricante, o sedã JAC E-JS7, com preço de R$ 259.990 e uma depreciação de 32,6%. Embora apresente um desempenho sólido, com aceleração de 0 a 100 km/h em 5,9 segundos, o veículo compete em um segmento de baixa procura no Brasil, que historicamente favorece os SUVs.
Completando o pódio dos que mais perderam valor está o Renault Kwid E-Tech. Vendido por R$ 139.990, o compacto elétrico teve uma queda de 25,9%. Sendo um dos elétricos mais acessíveis, sua proposta é urbana, com 161 km de autonomia, mas a falta de incentivos fiscais mais robustos e o custo de posse ainda elevado para a categoria afastam compradores no mercado de seminovos.
O prejuízo financeiro para os proprietários
A depreciação acelerada se traduz em perdas financeiras significativas para os donos desses veículos. Por exemplo, o proprietário de um JAC E-JS4 vê o valor de seu carro cair de R$ 254.900 para aproximadamente R$ 159.312 em um ano, uma diferença de R$ 95.588.
No caso do JAC E-JS7, o prejuízo no mesmo período é de R$ 84.757. Esses números representam um custo de propriedade muito acima do esperado para veículos novos, impactando diretamente o planejamento financeiro do consumidor.
Mesmo em modelos mais acessíveis, o impacto é notável. O Renault Kwid E-Tech perde R$ 36.257 de seu valor inicial. A lista de altas perdas não se restringe aos elétricos e inclui também a única picape do ranking, a Nissan Frontier XE.
A picape da Nissan sofreu uma desvalorização de 22,2%, o que representa uma perda de R$ 59.350. Este resultado foi parcialmente atribuído a interrupções na produção que afetaram sua disponibilidade e a percepção do modelo no mercado de seminovos.
Panorama do mercado de eletrificados no país
Apesar dos desafios, o segmento de veículos elétricos e híbridos tem demonstrado crescimento no Brasil. Em 2024, foram emplacadas 126 mil unidades, mas sua participação ainda é modesta, representando apenas 5% do total de vendas de veículos leves. A preferência do consumidor brasileiro continua sendo por modelos a combustão, especialmente os SUVs compactos, que dominam as listas de mais vendidos. Essa realidade se reflete diretamente no ranking de desvalorização, que também inclui modelos híbridos de marcas tradicionais, como o Honda CR-V. A percepção sobre marcas chinesas, como JAC e Caoa Chery, ainda enfrenta resistência no mercado de usados, apesar da tecnologia embarcada em seus produtos. Fabricantes como a BYD, que investem em uma rede maior e em marketing agressivo, têm conseguido mitigar parte dessa desvalorização. A expectativa é que futuros incentivos fiscais planejados pelo governo possam melhorar a aceitação e o valor de revenda dos eletrificados nos próximos anos, mas a infraestrutura de recarga permanece como o principal gargalo para a consolidação do segmento.
A realidade dos SUVs no estudo
Embora os veículos elétricos se destaquem negativamente, o estudo mostra que outros segmentos também enfrentam altas taxas de depreciação. O Jeep Commander, um SUV de sete lugares com forte apelo familiar, registrou uma queda de 19% em seu valor. Esse dado indica que fatores como o alto custo de manutenção e de peças de reposição podem impactar significativamente o valor de revenda, mesmo em modelos de alta demanda e de marcas consolidadas no mercado nacional.
Recomendações para uma compra mais segura
Para o consumidor que deseja evitar perdas financeiras expressivas com a desvalorização, uma análise de mercado antes da compra é fundamental. A recomendação de especialistas é priorizar marcas com uma rede de concessionárias ampla e estabelecida, o que garante maior facilidade na manutenção e no acesso a peças.
É igualmente importante pesquisar os custos de seguro e das revisões programadas, que podem variar consideravelmente entre modelos e fabricantes. Consultar previamente a Tabela FIPE permite uma projeção realista do valor de revenda do veículo desejado. Optar por modelos com alta liquidez no mercado de usados, como SUVs compactos de marcas japonesas e sul-coreanas, tende a ser uma escolha financeiramente mais segura.


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