Montadoras vão vender 3 milhões de veículos no ano, mas isso é um milagre contábil, não econômico
Caros leitores, digníssimas leitoras… a ANFAVEA apareceu com aquele número que deixa CEO de montadora com o peito estufado: 3 milhões de autoveículos vendidos em 2026. Um salto de quase 12% sobre o ano passado. Só automóveis? 2,9 milhões, alta de 13%. Parece até que o Brasil virou Suíça do dia para a noite.
Porque, quando a gente olha para o país real — não o país das apresentações em PowerPoint —, o cenário é outro. E aí, quando a ANFAVEA revisou suas projeções, o tico e teco do estagiário aqui entrou em ação.
O cenário atual?
- Juros altos, travando financiamento;
- Famílias endividadas até o pescoço (Banco Central: mais de 50% com dívidas recorrentes);
- Renda média estagnada;
- Desemprego estrutural, especialmente entre jovens.
Ou seja: o brasileiro médio não está comprando carro. Ele está comprando tempo para pagar o cartão.
Então, como diabos o mercado vai bater 3 milhões de unidades?
A resposta é tão óbvia que chega a ser ofensiva: quem vai salvar o mercado são as locadoras.
Sim, elas mesmas. Já falamos delas antes. As gigantes do aluguel, que compram carro como quem compra pão — só que em lotes de 10 mil unidades.
E aqui entra o ponto que ninguém quer falar, mas que a ABLA deixa claro: locadoras já representam entre 30% e 40% de todas as compras de carros novos no Brasil. Em alguns modelos, passam de 50%.
Ou seja: o mercado automotivo brasileiro virou dependente de meia dúzia de empresas.
E, entre essas empresas, uma é simplesmente um planeta: Localiza.
Nos seus balanços trimestrais, a Localiza mostra números que fariam qualquer montadora chorar de emoção:
- Mais de 200 mil carros comprados por ano;
- Renovação de frota acelerada;
- Venda de seminovos em ritmo de concessionária gigante.
OK. Mas, se o cenário não está bom para nós, para as locadoras também não é nenhuma Brastemp. Então, por que elas estão comprando tanto agora?
Porque estão correndo da nova tributação que entra em vigor no ano que vem.
Elas sabem que o regime fiscal vai mudar. Sabem que o custo vai subir. Sabem que o lucro vai apertar. E, como qualquer empresa que entende o jogo, estão fazendo o óbvio:
- Desovando usados agora, antes que o imposto morda;
- Comprando tudo que podem, enquanto o regime atual ainda permite margens gordas;
- Renovando frota em velocidade de Fórmula 1, para travar custos antes da virada tributária.
Uma analogia (REAL) para você entender melhor foi o que aconteceu sobre a questão da tributação sobre dividendos das empresas. O governo institui a nova tributação e o que tivemos? TODAS as empresas distribuíram todo o montante que possuíam antes da nova tributação entrar em vigor.
O conceito é o mesmo. E qual é o resultado para o setor automotivo?
O mercado automotivo brasileiro está inflado artificialmente.
Não é demanda real. Não é consumidor empolgado. Não é classe média renascendo das cinzas.
É engenharia tributária. É corrida fiscal. É locadora fazendo o papel de montadora, enquanto o brasileiro olha o preço do carro e pensa: “melhor esperar mais um ano”.
O número de 3 milhões é uma ilusão estatística.
Se você tira as locadoras da equação, o mercado cai para 2 a 2,2 milhões — números compatíveis com um país que está lutando para pagar boletos, não para comprar SUV.
E isso cria um problema que ninguém quer admitir:
O setor automotivo brasileiro virou refém das locadoras.
E isso explica muita coisa.
As montadoras dependem delas para fechar o ano. E aí, nos últimos 2–3 anos, tivemos a invasão das marcas chinesas, bagunçando o mercado.
Imagine a cena: reunião do board da montadora que você representa no Brasil, e você tendo que explicar para a matriz por que o mercado avança 20% no semestre e a sua marca está com crescimento nulo — ou retração.
O executivo brasileiro já sabe: o meu bônus foi para as cucuias.
E aí surge a tempestade perfeita para as locadoras: preciso antecipar compra para fugir da nova tributação + montadoras desesperadas para mostrar resultado = locadora comprando carro na bacia das almas.
É como se o Brasil tivesse duas indústrias automotivas:
- A indústria real, em que o brasileiro pensa dez vezes antes de financiar um carro de R$ 90 mil.
- A indústria paralela, em que Localiza, Movida e Unidas compram carros como se o país estivesse em pleno boom econômico.
E adivinha qual das duas está puxando os 3 milhões?
Conclusão: o Brasil não está comprando mais carros
As locadoras estão comprando o Brasil.
O número é grande, mas a história é outra. O crescimento é forte, mas o fundamento é fraco. A curva sobe, mas o país não acompanha.
Se o setor automotivo fosse um paciente, este ano seria aquele momento em que o médico olha os exames e diz: “Os números estão bons… mas não se anime. É efeito do remédio, não da saúde.”
E, quando a nova tributação entrar, o remédio acaba. E 2027 promete ser terra arrasada.
Aí veremos quem realmente sustenta o mercado — e quem só estava surfando a onda fiscal.
Fonte: Como o setor automotivo do Brasil virou refém das locadoras de veículos – Noticias R7


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