Mercado de Locação

Construtoras comemoram excelentes resultados em 2020

A pandemia aterrissou há um ano no país. Setores de todo o tipo foram impactados e alguns seguem se arrastando em meio às incertezas impostas pela crise sanitária. Mas há um segmento que segue em uma toada diferente: o da construção civil. Números não mentem. Não há, portanto, como iniciar esta reportagem ignorando-os. Conforme o Sinduscon-MG, no conturbado 2020, BH e Nova Lima registraram crescimento de 22,66% nas vendas de imóveis, em relação ao ano anterior. Ainda conforme a entidade, a construção civil foi o ramo da economia que mais gerou empregos no estado. Na contramão de uma taxa de desemprego recorde no país – com 13,4 milhões de pessoas sem trabalho – o setor assinou mais de 25 mil carteiras em Minas Gerais. Há uma explicação para isso. Durante a pandemia, apesar das construtoras adotarem medidas de contenção da doença, os canteiros de obras não foram abandonados. E a demanda já era grande, afinal, as unidades que estavam em estoque começaram a serem vendidas em um ritmo frenético como aponta o dado acima. E o motivo é bem conhecido: taxa Selic no chão (2,75% ao ano, depois da elevação decidida pelo Copom no dia 17 de março) e flexibilização das linhas de financiamento existentes. “Com o trabalho em home office, notamos que as pessoas estavam com mais tempo, e passaram a buscar por novas e melhores moradias, sobretudo, com varanda, que passou a ser uma prioridade em detrimento até da garagem”, diz Geraldo Linhares, presidente do Sinduscon-MG.
Tarcio Barbosa, diretor de marketing e de vendas da Canopus: “2020 foi o melhor ano da empresa desde 2013. Crescemos mais de 100%”(foto: Pádua de Carvalho/Encontro)

 

Há mais números animadores. Segundo o Instituto Data Secovi, da Câmara do Mercado Imobiliário e Sindicato das Empresas do Mercado Imobiliário do estado, o segundo semestre de 2020 puxou a retomada. Foi anotado o crescimento de 9% em relação ao mesmo período de 2019, superando em 52% a quantidade de imóveis vendidos no primeiro semestre de 2020. A leitura feita na época era de que o temor gerado pela Covid-19 nos primeiros meses do ano havia se arrefecido e as pessoas começaram a buscar imóveis mais espaçosos, já que o lema “Fique em Casa” havia ganhado força.

“Foi o melhor ano da empresa desde 2013”, afirma Tarcio Barbosa, diretor de marketing e vendas da construtora Canopus. “Crescemos mais de 100%.” De acordo com ele, o mercado ficou praticamente parado até 2018. Leia-se: juros altos e muitos imóveis “nas prateleiras”. Para se ter ideia, a taxa Selic, que influencia diretamente no valor dos financiamentos, chegou ao patamar de 14% ao ano, entre 2014 e 2016. Para este ano, a empresa prevê um VGV (Valor Geral de Vendas) em torno de R$ 1 bilhão de reais. Neste semestre, a ideia é realizar um lançamento por mês em sua área de atuação: BH, São Paulo e Rio de Janeiro. Um desses empreendimentos, na capital mineira, está previsto para ser em frente à igreja da Boa Viagem, no bairro de mesmo nome, em uma área de 7 mil metros quadrados. “Talvez o maior terreno disponível na região”, destaca Tarcio, sobre a escassez de áreas na parte centro-sul da cidade. Outra construção de destaque da Canopus já está em andamento com a promessa de conclusão em abril de 2022. É o Infinity Art Residences, no bairro Santo Antônio, na rua São Domingos do Prata, que irá harmonizar com 13 casas tombadas, dentre elas, a que morou o escritor Guimarães Rosa.
Alberto Viotti, sócio-proprietário da Construtora Altti: “Muita gente adiou a aquisição do imóvel por causa da pandemia. Acredito que quando a vacina alcançar mais pessoas, e o número de casos de Covid-19 começar a cair, vamos ter um verdadeiro boom, uma euforia neste mercado”(foto: Divulgação)

 

Alex Veiga, CEO do Grupo Patrimar, afirma que a estagnação do setor durante a pandemia durou apenas dois meses, março e abril. “Em 2020, registramos um crescimento vertiginoso, o melhor ano da história da empresa. E 2021 vai ser espetacular”, diz. O crescimento foi na ordem de 88,4%, com lucro bruto de R$ 168 milhões e líquido de R$ 94 milhões. “As baixas taxas de juros, disponibilidade de crédito, formação de poupança e excesso de liquidez na economia ajudaram a impulsionar o mercado imobiliário em 2020”, explica Alex.

 

 

Alexandre Lodi, presidente da Caparaó: “A conta é simples, quando cai a Selic, caem os juros de financiamento. Nós praticamente zeramos nosso estoque de unidades”.(foto: Uarlen Valério/Encontro)

 

Em 2021, a Patrimar, em parceria com a Somattos, prevê a entrega de parte do La Reserve no segundo semestre. Será um empreendimento de altíssimo luxo no Vila da Serra, em Nova Lima. O condomínio será composto pelos edifícios Apogée e L’Essence, cujas unidades já foram 80% comercializadas, e serão entregues em julho deste ano. Já o Unique, lançado por último, com mais de 40% dos apartamentos vendidos, será concluído em setembro de 2024. Ainda em parceria com a Somattos, a Patrimar lançou o 2300 Rio de Janeiro que está sendo erguido no bairro de Lourdes. De acordo com Alex Veiga, 14 das 17 unidades com metragem a partir de 385 metros quadrados já têm donos. Para o CEO do grupo, os próximos meses serão marcados pelo retorno da construtora na categoria de média renda.

Ricardo Paixão, CFO da MRV, aposta na expansão para imóveis de médio padrão: “Por mais confiável que o FGTS seja, é importante trabalharmos com outras fontes de financiamento”(foto: Divulgação)

 

Essa é também a meta da MRV, que está comemorando os bons ventos do setor. Ricardo Paixão, CFO da companhia, afirma que em 2020, 18% das vendas da empresa foram para o segmento da média renda e este ano a meta é aumentar essa fatia. “Por mais confiável que o FGTS seja, é importante trabalharmos com outras fontes de financiamento”, diz Ricardo, sobre os negócios irem além do segmento da baixa renda, que abrange o programa Casa Verde e Amarela, antigo Minha Casa, Minha Vida, categoria que o grupo mineiro domina. A MRV se transformou em uma plataforma habitacional que conta com outras empresas do mercado imobiliário. Desta forma, o grupo passou a se chamar MRV&Co, formada pela MRV, Urba, Luggo, HS e Sensia, esta última voltada a empreendimentos de médio padrão. Resultado: 2020 foi marcado pela venda de 54 mil unidades, o que equivale a 8,7 bilhões de reais. Foi considerado o maior volume de vendas da MRV&Co em um ano. A tendência, segundo o diretor da MRV, é o mercado continuar aquecido. “A valorização da casa veio para ficar. Temos a nossa subsidiária, Urba, que trabalha com loteamentos. Notamos que a demanda aumentou bastante durante a pandemia”, diz.

 

Gilmar Dias Santos, presidente do grupo EPO, que acaba de lançar um complexo de uso misto na Lagoa dos Ingleses: “Com apenas três meses de comercialização, 70% das unidades foram vendidas”(foto: Alexandre Sandrini/Divulgação)

 

Há ainda outra tendência que a crise sanitária acelerou, a possibilidade de comprar uma casa quase sem sair de casa. “Sempre investimos muito em tecnologia. Os nossos clientes contam com uma plataforma que facilita e muito esse processo”, diz. Com as restrições físicas impostas pela pandemia, a compra de imóvel foi transferida em grande parte para o ambiente on-line. O Sinduscon-MG promoveu em novembro do ano passado uma feira virtual, que atraiu mais de 11 mil pessoas que tiveram à disposição para venda pelo menos 2 mil imóveis de baixa renda a alto padrão.

 

Amarildo Oliveira, sócio-diretor comercial da incorporadora Minas Brisa: aumento de 80% das vendas em 2020 em relação ao ano anterior(foto: Divulgação)

 

Alberto Viotti, sócio-proprietário da Construtora Altti, acredita que apesar dos bons números do setor, ainda há uma demanda reprimida de novos compradores. “Muita gente adiou a aquisição do imóvel por causa da pandemia. Acredito que quando a vacina alcançar mais pessoas, e o número de casos de Covid-19 começar a cair, vamos ter um verdadeiro boom, uma euforia nesse mercado”. Em 2021, a previsão é aumentar 30% as vendas em relação ao ano passado. Mas, o cenário não é só positivo. Alberto se diz preocupado com a falta de terreno em Belo Horizonte e o preço elevado de alguns materiais de construção. Outra questão que está deixando os construtores e compradores bem atentos é o novo Plano Diretor de BH, que restringiu a construção, sobretudo, em regiões já adensadas como a Centro-Sul. Em outras palavras, vai ficar mais caro erguer prédios em determinadas áreas da cidade. Aprovado em 2019, o plano ainda não foi totalmente aplicado, já que há um período de três anos de transição. Depois disso, especialistas acreditam que os valores devem ficar um pouco mais salgados.

 

Geraldo Linhares, presidente Sinduscon-MG: “Com o trabalho em home office, notamos que as pessoas estavam com mais tempo, e passaram a buscar por novas e melhores moradias”(foto: Divulgação)

 

O bom momento do segmento não favorece apenas quem adquire um imóvel para morar, mas também quem compra para investir. “O valor do investimento no imóvel, ou seja, o quanto ele irá valorizar, acrescido do que será arrecadado pelo aluguel, alcança um valor maior que as aplicações que têm como base o CDI””, diz Cássia Ximenes, presidente da CMI/Secovi. Ela lembra que, além das linhas de financiamento terem sido flexibilizadas, há a chamada portabilidade de financiamento. “Hoje, a pessoa pode fazer com tranquilidade o financiamento com o agente, pois ela estará livre para levar a carteira de financiamento para qualquer outro banco, caso encontre uma opção melhor para comprar”, diz Cássia. Para Breno Donato, diretor comercial da imobiliária Anuar Donato, o mercado está aquecido também na busca por terrenos. Segundo ele, há muita gente atrás de lotes para erguerem casas. “A pandemia intensificou a procura por imóveis mais espaçosos e com boa área de lazer. No nosso caso, registramos uma demanda por terrenos na Grande BH.”

 

Cássia Ximenes, presidente da CMI/Secovi: “O valor do investimento no imóvel, ou seja, o quanto ele irá valorizar, acrescido do que será arrecadado pelo aluguel, alcança um valor maior que as aplicações que têm como base o CDI”(foto: Divulgação)

 

“A conta é simples, quando cai a Selic, caem os juros de financiamento. Nós praticamente zeramos nosso estoque de unidades”, revela Alexandre Lodi, presidente da Caparaó. Segundo Alexandre, que adquiriu a construtora no segundo semestre de 2019, ano passado foi um período de reestruturação da empresa, mas os próximos meses serão marcados por novidades na cena de BH. “Adquirimos os terrenos mais especiais do mercado na região centro-sul e estruturei um time para conduzir a empresa rumo a um novo patamar”, afirma. “A construtora está pronta para vários lançamentos em 2021, sendo alguns ainda para esse primeiro semestre.”

Seguindo as demandas impostas pela pandemia, Jackson Câmara, diretor comercial da construtora Agmar, diz que houve grande procura por coberturas. “Não temos mais nenhuma para vender”, diz. “Acredito que a pandemia acelerou um antigo desejo das pessoas de morar em casas com mais espaço e com boa área de lazer”, diz Jackson, destacando que a empresa prevê a entrega, em junho, do Edifício Zandona Ephram, no bairro Santo Agostinho. O empreendimento vai oferecer, dentre outros atrativos, espaço gourmet, sauna, sala de ginástica e espaço kids.
Breno Donato, diretor comercial da Imobiliária Anuar Donato: “A pandemia intensificou a procura por imóveis mais espaçosos e com boa área de lazer. No nosso caso, registramos uma demanda por terrenos na Grande BH”(foto: Divulgação)

 

Amarildo Oliveira, sócio-diretor comercial da incorporadora Minas Brisa, revela que 2020 surpreendeu e foi responsável por um acréscimo de 80% nas vendas em relação à 2019. Apenas no primeiro semestre deste ano, a incorporadora prevê cerca de R$ 100 milhões de VGV em lançamentos. “Acredito que no segundo semestre a economia deve engatar e devemos fechar 2021 melhor que o anterior”. O clima está favorável também para o grupo EPO, que lançou o Navegantes, um empreendimento de uso misto que vai reunir em um só lugar, na Lagoa dos Ingleses, torres comerciais, residenciais e um centro comercial. “Os projetos das torres residencial e comercial do Navegantes foram apresentados ao mercado em janeiro e já são um sucesso de vendas”, afirma Gilmar Dias Santos, presidente do grupo. “Com apenas três meses de comercialização, 70% das unidades foram vendidas.”

O Banco Central já avisou que a taxa Selic, a que direciona o valor dos financiamentos, deve subir ainda mais este ano, mas não vai chegar nem aos pés da alta registrada entre 2014 e 2016, que paralisou o setor imobiliário. Só o tempo dirá se os bons ventos continuarão por mais tempo soprando a favor de quem constrói e de quem compra. Para o momento, no entanto, uma coisa é certa: a hora de investir é agora.
Números animadores
  • 22,66%: foi o crescimento na venda de imóveis em BH e Nova Lima em 2020 em relação ao ano anterior
  • 25 mil: empregos foram gerados no ano passado no setor de construção civil

Fonte: Revista encontro

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